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Álbum Bill Callahan

Apocalypse

Como o artwork denuncia, estamos perante um disco feito à base de tradição e identidade. O que, na prática, traduz-se numa beleza sonora da folk.

Data de Edição
2011
Editora
Drag City
Géneros
Country, Folk, Indie, Rock
Por Ana Beatriz Rodrigues 22 de Agosto, 2011

Apocalypse é um disco feito de arquétipos para a alma. Ao terceiro trabalho em nome próprio, Bill Callahan (com um vasto passado enquanto Smog) escava a cultura norte-americana para encontrar um tesouro de raízes identitárias.

Se, à vista míope, Apocalypse pode parecer algo simples, quando colocamos as lentes musicais, ouvimos um gravitar belo à volta de um intimismo controlado, simultaneamente, espontâneo e livre. Isto é, qual paradoxo, a beleza e o mistério de um álbum composto à base de guitarras eléctricas embutidas com fuzz e de sonoridades folk, a roçar o country e o jazz.

Uma espécie de trovador da era moderna, Callahan sussura contos pessoais, através de metáforas, as quais nos assolam, com um sentimento de perda. Tudo isto parece ser resultado de uma herança da América deserta, e sempre com o auxílio de uma voz ansiosa (junta ao nosso ouvido, mas que não comunica directamente connosco – antes soa-nos mais como se o singer-songwriter estivesse a falar consigo próprio) e das cordas de uma guitarra já velhinha, mas muito actual. Por vezes, e como Drover exemplifica, há pausas subtis nas melodias, para, posteriormente, um exacerbar crescente de intensidade rebentar e atingir um clímax - que o piano agradece, diga-se.

Apesar de uma beleza inerente, Apocalypse carrega consigo momentos irónicos (humorísticos, perversos, engraçados – qualquer uma destas denominações serve), de crítica social mordaz e saudosista, com America! e as suas letras a desempenharem um foco brutal: «America!/ You are so grand and gold, golden/ Oh, I wish I was deep in America, tonight/ America! America! / I watch David Letterman in Australia».

Cada tema, em Apocalypse, é um capítulo, tocante e quente, directo ao coração, com arranjos de violino a acentuaram o modo sensorial. As paisagens e o lirismo narrativo - a bateria cúmplice pisca o olho – completam um cariz quase tradicional, onde só faltam os veados a saltitar pelos bucólicos campos verdejantes. O apocalipse não está para breve, porque, sem dúvida, estamos perante um dos melhores registos do ano.