"Tentamos sempre fazer algo de diferente do que fizémos no álbum anterior e cada vez melhor"
Depois do lançamento de Infectious Affectional nesta Primavera, os X-Wife andam numa roda viva de concertos: a banda de João Vieira actua sexta-feira nas Noites Ritual, e tem visitas agendadas ao Rock' Art Bairrada e ao Festival She, em Évora.
"Não sentimos pressão de nenhum lado para tentar fazer alguma coisa diferente, apenas é a nossa forma de fazer as coisas"

A história dos X-Wife anda de mãos dadas com a história da música portuguesa. Quase a completarem uma década, os autores de Are You Ready For The Blackout?, continuam a dar cartas dentro e fora de portas, tendo editado Infectious Affectional, o seu quinto disco, este ano. O PA' falou com o vocalista João Vieira sobre o novo registo, não descurando as estórias da génese do grupo e os planos vindouros destes portuenses.
No próximo ano, os X-Wife celebram, oficialmente, 10 anos de carreira. Que balanço fazem desta década?
Surpreendente. Tudo começou duma forma ingénua e apenas pelo prazer de fazer música. Nunca pensámos chegar aqui, acho que o balanço é mais do que positivo e [é um] motivo de orgulho para todos os elementos da banda.
Passaram-se três anos desde o lançamento de Are You Ready For The Blackout. O que andaram a fazer, enquanto colectivo ou a solo, desde então?
Como banda, andámos em digressão com o Blackout em Portugal, Espanha e [fizémos] uma mini-tour pelos Estados Unidos durante, praticamente, dois anos. No outro ano, estivémos ocupados a escrever e a gravar o Infectious Affectional. A solo, o Rui [Maia] tem editado vários EP’s e feito remixes com o seu side project Mirror People; o Fernando [Sousa] tem colaborado enquanto guitarrista de bandas como os Paco Hunter, eu tenho trabalhado como DJ Kitten e abri um oficina de serigrafia com a minha sócia ilustradora, Célia Esteves.
"O Club Kitten foi uma lufada de ar fresco no panorama musical nacional"
Ainda sobre a vossa história, em que medida é que o Club Kitten afectou o vosso lançamento?
Pode ter afectado de alguma forma, pois o vocalista da banda e DJ Kitten eram a mesma pessoa e estas festas tiveram muito impacto tanto no Porto, como em Lisboa. Foi uma lufada de ar fresco no panorama musical nacional. Uma sonoridade que estava em sintonia com o que se fazia lá fora e que se identificava com a música que eu passava nas festas Club Kitten.
O que significa Infectious Affectional para vós? E o que nos podem contar sobre o novo disco?
Infectious como contagiante, [porque] a música pode ser contagiante no bom sentido, é claro. Affectional do lado afectivo de fazer música, como uma forma de expressão, o prazer de criar algo do qual te orgulhas. Há, também, uma sonoridade no título que me agrada.
Há uma mudança na vossa sonoridade, neste álbum. Foi propositada, ou simplesmente surgiu?
Surgiu de forma natural. Assim como todos os álbuns, não sentimos pressão de nenhum lado para tentar fazer alguma coisa diferente, apenas é a nossa forma de fazer as coisas, demonstra que temos vontade em criar algo diferente. Nem precisa de ser falado, é algo que temos como adquirido.
As vossas influências vão beber em muito às décadas de 80, o que não é muito comum em bandas portuguesas, não cultivamos muito a cultura do post-punk, salvo raras excepções. Isso foi, alguma vez, um entrave ao vosso sucesso?
Não posso concordar muito contigo aí, acho que bandas como os GNR e os Pop Dell' Arte - até os Heróis do Mar - foram inspiradas pelo pós-punk... Quanto ao sucesso, também é algo relativo e que pode ser visto de várias formas. Acho que somos uma banda muito bem sucedida, gravámos quatro álbuns bem recebidos pela crítica e pelos públicos nacional e internacional, tocámos em todos os festivais em palcos principais, fomos capa de jornais e revistas várias vezes, fomos nomeados para os MTV Awards em Portugal e temos vindo a crescer em território Ibérico, conquistando cada vez mais fãs e tocando para cada vez mais pessoas.

"Sentimos uma ligação maior com Nova Iorque do que com Londres "
No seguimento da pergunta anterior, o vosso passado (e herança, também) está muito ligado à cidade de Londres. A vossa internacionalização, com isso, foi facilitada?
Como banda, sentimos uma ligação maior com Nova Iorque do que com Londres (apesar de eu ter vivido aí quase 6 anos), não só em termos de sonoridades (é de NY que vem a maior parte das nossas influências), bem como da atenção que temos recebidos de lá. O grande entrave é a distância, logo [existe] a dificuldade de tocar lá com mais regularidade, o que é algo muito importante e sempre necessário. De qualquer forma, nós temos sempre tentado tocar lá fora, desde que surjam oportunidades que façam sentido. O caso de tocarmos com os Simian Mobile Disco, em Nova Iorque, com os Love Is All, em Londres, ou no Festival Primavera Sound, em Barcelona, são alguns dos exemplos disso.
Vocês criaram uma imagem muito própria e agora, segundo dizem, não conseguem "get out of this tight jeans”. Em 2011, esta reivenção surge porquê?
Essa frase é uma metáfora, uma espécie de crítica a pessoas que não conseguem mudar, que se sentem “presas a uma fórmula”, por vezes já desgastada pelo tempo. Nós sentimos que estamos sempre a evoluir e livres de quaisquer fórmulas ou afins, é importante reinventar e fazer cada vez melhor.

"A música deve ser expandida e devem surgir novos projectos, senão andam sempre cá os mesmos"
Os X-Wife estão, maioritariamente, sediados no Porto. Sentem que, por virem da invicta, é mais complicado “infiltrarem-se” no circuito musical?
Não. Há muitos projectos, com grande impacto no panorama da música nacional, sediados aqui no Porto. Por exemplo, o Pedro Abrunhosa, o Manel Cruz, os Zen, os Clã, sei lá... Tantas bandas...
O norte está agora a ter uma nova cena, em muito impulsionada pelos trabalhos da Lovers & Lollypops e pela Meifumado. Como é que encaram este surgimento e o sucesso destas novas bandas?
Um processo natural e saudável. A música deve ser expandida e devem surgir novos projectos, seja a nível de bandas ou de editoras, senão andam sempre cá os mesmos...
Têm tido vários concertos de apresentação de Infectious Affectional, de norte a sul. Em breve, vão actuar nas Noites Ritual, no Rock’Art Bairrada e no Festival She. Como estão a ser as reacções ao vivo deste novo registo?
Temos recebido muitos elogios do público em geral. Há muito feedback nas redes virais; logo a seguir aos concertos recebemos muitos elogios, tanto de fãs, como de público que não nos conhecia.
E da imprensa, dos fãs, qual têm sido o feedback deles sobre Infectious Affectional?
A nível de imprensa, o disco foi do agrado de toda a gente. Todas as críticas foram boas. Sobretudo, pelo facto de muita gente achar que este é o nosso melhor trabalho até à data. Dos fãs, temos recebido muitos elogios em relação ao disco. Acho que nunca os desiludimos. pois tentamos sempre fazer algo de diferente do que fizémos no álbum anterior e cada vez melhor.
O que é que podemos esperar dos X-Wife para um futuro breve?
Muitos concertos até ao fim do ano. Temos uma agenda muito preenchida.


