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Entrevista Six Organs of Admittance

“Nunca ninguém iria ouvir um disco gravado por alguém chamado Ben Chasny"

O norte-americano falou com o PA', em antecipação da visita dupla que tem agendada, para o Porto e Lisboa, na próxima semana.

"Um pseudónimo esconde a pessoa interior. Se eu quisesse mostrar quem sou, limitava-me a usar o meu nome"

Por António M. Silva 2 de Setembro, 2011

De Ben Chasny, tudo o que se diga nunca é suficiente. A sensibilidade dele é apenas comparável à sua criatividade que, curiosamente, esbarra na humilde ideia que tem de si mesmo. Sim, Ben Chasny não se assume como bom guitarrista e prefere dizer que “tem um desconto” no pequeno underground onde se move. Apesar do medo de um miúdo genial que apareça que nem um Messias da guitarra, nós estamos seguro na nossa posição: Ben, tu és inigualável. Não tenhas medo.

Numa entrevista em 2006, disseste que eras algo preguiçoso. Ainda assim, desse ano em diante editaste cinco ou seis discos e isso só como Six Organs of Admittance. Ainda te consideras preguiçoso?

Isso é o quê, 40 minutos de música por ano? [risos] 40 minutos de música em 365 dias. Sim, eu acho que isso é bastante preguiçoso.

No que toca a guitarristas que tenho seguido atentamente nos últimos anos, acho que és dos mais reconhecíveis – seja pelo estilo, pelo sentimento ou até pela temática. Achas que ainda há espaço para melhorar a tua música?

Obrigado. Mas sabes que não sinto que haja assim tantos bons músicos no underground, portanto acho que acabamos por ter um desconto. Acho que nunca seria capaz de singrar no “mundo real”. Imagina que, de repente, aparece um miúdo a tocar tão bem como o Pierre Bensusan (uma prova de que em França não se faz só folk, nem emigrantes portugueses); aí as pessoas iam perceber o que é tocar a sério.

Six Organs of Admittance tem um ambiente muito etéreo, que parece quase retirado a um sonho. No que a influências diz respeito, quanto é que vem da música e quanto é que vem de “influências exteriores”?

A maior parte vem da música. Sempre adorei bandas como Organum, Taj Mahal Travellers e Popul Vuh. Bandas que chegam onde devem chegar e onde eu quero chegar. Mas claro, há sempre algo que me diz para ir ouvir essas bandas, por isso a tua pergunta é um bocado uma pescadinha de rabo na boca.

Depois de teres trabalhado com tanta gente diferente (do Chris Corsano, aos OM e até mesmo nos Comets on Fire), acho que o facto de encarnares sozinho Six Organs of Admittance tem mais impacto. Dirias que o uso deste pseudónimo é um reflexo da tua pessoa interior, dos teus pensamentos?

Por acaso, diria que é o contrário: um pseudónimo esconde a pessoa interior. Se eu quisesse mostrar quem sou, limitava-me a usar o meu nome. Mas, mais uma vez, é o teu interior que faz o teu exterior. Com estas perguntas começo-me a sentir como se estivesse no divã de um psicólogo. Sabes alguma coisa que eu não sei? [risos]

Sei exactamente o mesmo que tu Ben, descansa. Mas sendo assim, porque é que não gravas simplesmente sob o nome Ben Chasny?

Simples: nunca ninguém iria ouvir um disco gravado por alguém chamado Ben Chasny.

Corrige-me se estiver errado, mas sempre me pareceu haver um sentimento muito espiritual, no sentido de ser inexplicável e quase intangível, na tua música. O que eu quero perguntar é se tens algum tipo de crença, religiosa ou espiritual?

Eu não acredito que nada, nem ninguém tenham um valor inerente a si próprio. Isso depende sempre do mundo em que se existe e do que se está a experenciar ou de quem o está a experenciar.Se sentes [a minha música] como espiritual, é a tua forma de sentir e eu respeito-a. Pessoalmente, acho que é uma palavra muito carregada desde que começou a ser usada pelos New Agers, por isso acho que nunca a usaria para descrever aquilo que eu faço.

Quando trabalhaste com o David Tibet (Current 93), alguma vez tiveram algum tipo de conflito? Pergunto isto devido às diferentes crenças e formas de ver a religião…

O David Tibet e eu nunca tivemos conflitos relacionados com esse tipo de assuntos, embora ele provavelmente ache que eu vou para o Inferno. [risos]

Falando um pouco do teu novo álbum, Asleep on the Floodplain, acho-o ao mesmo tempo intrigante e emocionante – quase comovente. Até que ponto é que este disco reflecte a tua vida? É verdade que o gravaste todo em casa?

Obrigado de novo. Este disco é realmente mais pessoal que os outros. Há muito do meu passado nele. É engraçado, mas apercebi-me que se quiser fazer um disco “feliz”, preciso de mergulhar no meu passado. Tenho sorte por ter tido uma infância muito boa, sabes? E como queria fazer algo bem-disposto e motivador, tentei mergulhar nas minhas memórias de infância.

O que achas da música e da arte contemporânea? Ouves outros géneros de música, vais a exposições?

Tento manter-me receptivo ao máximo, a tudo. Acho que estamos a viver uma altura muito entusiasmante, no que à arte e à música diz respeito. Há muita coisa boa a acontecer.

E posto isto, o que se segue para o Ben Chasny?

Acabei de gravar um álbum com a Elisa Ambrogio (Magik Markers) que sai em Novembro pela Drag City. Chamamo-nos 200 Years e é a coisa mais calma que cada um de nós já fez.

E existe mais alguém com quem gostasses de tocar? Assim de repente, acho que ia adorar ouvir-te com o Will Oldham (também conhecido como Bonnie Prince Billy).

Por acaso já andei em digressão com ele durante um verão. Ele tinha editado um 12’’ e eu toquei em algumas músicas. Há algumas pessoas com quem eu gostava de colaborar, mas ninguém de que me lembre agora… Mas, depois de tocar em Portugal, vou colaborar com os Gala Drop! Eles abriram para Six Organs of Admittance há uns anos e foi perfeito.

Por tua causa, a Drag City vai reeditar o catálogo inteiro do Carlos Paredes e acho que falo por muita gente quando te digo, de peito cheio, muito obrigado. Acho que é mais que merecido! Lembras-te da primeira vez que ouviste o Paredes a tocar?

Obrigado, mas não posso ficar com os louros por isso. Fui apresentado ao Carlos Paredes pelos meus amigos em Lisboa. Nunca teria ouvido falar dele, se não fosse por eles. Mas depois a Drag City abriu uma filial na Europa, contrataram alguém de Lisboa chamado Fred Somsen e foi ele que fez o trabalho todo. Mas estou muito entusiasmado com isto tudo. Espero que mostre às pessoas que existem outras formas de tocar guitarra para além do primitivismo americano (vide John Fahey).

Consegues descrever Paredes em três palavras?

Classe. Paixão. Imaculado.

Na verdade, o Carlos Paredes é só uma pequena amostra da tua relação muito próxima com Portugal. Chegaste mesmo a dar o nome de Lisboa a uma das tuas músicas. O que é que gostas nesta cidade? Já pensaste em mudar-te para cá?

Adorava mudar-me para aí e já pensei nisso muitas vezes. As palavras não chegam para dizer o que eu gosto em Lisboa. É uma questão de humor e sabor. São os amigos que fiz aí. É a luz. São muitas coisas.

Por fim: se parasses de fazer música, o que fazias?

Jardinagem. E lia.