“Atingimos um fim natural e essa é uma das razões por que vamos terminar a banda no final deste ano.”
Aquando da sua ainda fresca passagem por Lisboa, os Ritual conversaram com o PA' sobre o seu percurso e sobre o fim anunciado para este, previsto para o fim do ano.
“Uma canção por si só não é a revolta: naquele momento é apenas energia e catarse, mas fora dela, mais tarde, tem realmente o potencial de alimentar uma revolução”
Naturais da Alemanha, desde 2005 que os Ritual disseminam hardcore melódico, sincero e com consciência política. A banda vai terminar o seu percurso no final deste ano com uma última tournée, partilhada com os Verse e os Soul Control. Em entrevista, Julian e Philipp deram-nos a infeliz notícia, mas também revelaram as convicções, os universos musicais e os próximos projectos de cada um.

Comecemos pelo mais recente álbum, Paper Skin, particularmente pela abordagem algo experimental e “fora da caixa”, que fez dele um dos melhores registos de hardcore do ano passado. Tiveram a intenção clara de criar algo diferente e mais amplo que os padrões do hardcore ou foi simplesmente um processo natural?
Julian: Depois lançarmos o disco anterior ao Paper Skin, prometemos a nós mesmos que o seguinte seria diferente de tudo o que já tínhamos feito até então, o que acaba por ser natural se considerarmos o tempo que passou desde que começamos a tocar juntos. Desse prisma, até certo ponto foi intencional. Mas, claro, nós não tínhamos ideias definidas sobre como fazer algo diferente até ao momento de entrar em estúdio, imensa coisa só surgiu lá. Por isso, para responder à pergunta, diria que foi um pouco de ambos.
Philipp: Exactamente. Queríamos compor música que não fosse apenas funcional, para tocar ao vivo, mas também que desse prazer ouvir em casa. Música que é preciso descobrir. Sentimos que explorámos os limites do hardcore porque ao mesmo tempo que queríamos expandir horizontes não queríamos abandonar este género musical, porque afinal de contas somos uma banda hardcore e, mais do que isso, achamos que a energia deste estilo é insubstituível. Concordo com o Julian quando ele diz que as mudanças são sempre naturais de certa maneira. Não podes estar a fazer a mesma coisa vezes sem conta.
Ficaram satisfeitos com o resultado?
P: Definitivamente, e ainda estamos. Eu gosto especialmente da produção, obra do nosso amigo Robin Völkert, que fez realmente um grande trabalho no estúdio e no processo de mistura. Ele retirou o melhor de nós e ajudou-nos a construir a sonoridade perfeita para o que queríamos fazer, com uma certa atmosfera que é audível em cada faixa. E também acho que o álbum tem algumas das melhores músicas que já compusemos.
J: Eu também, mais do que nunca. A mim parece-me que compusemos efectivamente um "álbum", na verdadeira acepção da palavra, entendes? Continuo a ouvi-lo e estou a gostar ainda mais de tocar as músicas ao vivo. Que bom seria podermos tocá-las muito mais vezes…
Neste álbum incluíram alguns instrumentos pouco usuais. De onde veio a inspiração para incorporar um contrabaixo, um harmónio e um sintetizador, por exemplo?
P: Isso aconteceu quando em 2010 entrámos em estúdio para gravar o EP Kissing Pavement. Quando lá chegámos, encontrámos imensos instrumentos (parecia uma loja de música mas ao estilo feira), entre os quais o harmónio e o contrabaixo. Decidimos imediatamente incluir alguns destes instrumentos quando lá voltássemos para gravar o álbum, e foi exactamente isso que fizemos. Como podes imaginar, habitualmente não ensaiamos com estes instrumentos, nem sequer os temos no nosso estúdio, mas creio que soubemos incluí-los bem no disco.
J: Eu acho que a atmosfera do estúdio também nos inspirou muito a trabalhar desta forma.
“Construir um disco no qual se tentam coisas bastante diferentes é uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo”
Que direcção julgam que o som dos Ritual poderia seguir depois de Paper Skin?
P: Construir um disco no qual se tentam coisas bastante diferentes é uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo. Demos por nós numa situação em que não fazíamos a menor ideia de como continuar após "Paper Skin" e, simultâneamente, sentimos que nem sequer tínhamos vontade de olhar para novos caminhos criativos. Percebemos que, com este álbum, atingimos um fim natural e essa é uma das razões por que vamos terminar a banda no final deste ano. Claro que continuamos a encontrar motivação para desafios criativos, razão pela qual todos nós continuaremos a tocar em bandas, mas os Ritual chegaram ao final da linha.
J: Penso que nos poderíamos ter desenvolvido em muitas direcções, demasiadas mesmo. Considerando que entretanto todos começámos novas bandas, talvez ouvi-las seja a melhor forma de perceber para onde iriam os Ritual.
Podem falar-nos um pouco sobre os vossos novos projectos musicais?
J: A minha nova banda chama-se Orbit the Earth e estamos apenas ainda a ensaiar, por isso nesta fase não é fácil dizer muito sobre ela nem a que é que vai soar. Mas, ao contrário da nova banda do Philipp, será uma banda de hardcore e promete ser algo puxado! O Noah, baterista dos extintos Just Went Black, também faz parte da banda.
P: Pascal, o nosso baixista, e eu, estamos a tocar numa banda punk chamada Messer, que é a palavra alemã para faca. As letras são em alemão, e nem sei bem de que forma é que pode interessar a alguém que não fale esse idioma, sobretudo porque eu considero as letras uma parte muito importante da banda. Musicalmente somos influenciados por bandas pós-punk do início dos anos 80 e até mesmo por algumas sonoridades psicadélicas dos anos 70. Para citar algumas referências de que gostamos bastante diria The Fall, Sonic Youth, Wipers e diversas bandas alemãs obscuras.
Tal como vocês, a maioria das bandas de hardcore faz tournées com poucos meios, contando essencialmente com a ajuda de diferentes pessoas em cada cidade, numa lógica fortemente “faz tu mesmo”. Acham que as sociedades modernas têm algo a aprender com esta maneira de fazer coisas?
J: O mais fulcral para mim é o facto das pessoas se ajudarem mutuamente e cuidarem umas das outras. É muito simples, mas é apenas o que eu acho.
P: Sem ser isso, eu também não sei que mais as sociedades, na sua totalidade, poderiam aprender. Uma pessoa socializada no seio do punk e do hardcore pode aprender muito, mas mais ao nível individual. Pessoalmente, o punk e o hardcore mostraram-me que eu posso fazer as coisas pelas minhas próprias mãos, e deram-me a coragem para as realizar. Se havia algo que não existia e que eu queria, eu fiz acontecer. Esta é uma forma de agir que podes manter sempre, independentemente dos meios onde te inseres ao longo da vida.
“De que vale falar sobre direitos dos animais a uma multidão de vegetarianos? (...) O desafio é levares as pessoas a reflectir sobre o que dizes e tirarem elas próprias as conclusões”
A primeira vez que tomei contacto com o hardcore foi num concerto numa casa ocupada e logo fiquei conquistado pela abertura das pessoas e pelos temas invulgares que ali se abordavam. O que aprendi nessa comunidade nos anos seguintes influencia positivamente o meu estilo de vida até hoje. Dessa perspectiva, consideram importante que alguém que vá ao seu primeiro concerto de hardcore sinta uma certa diferença face a concertos de outros estilos?
J: Eu acho que não é apenas importante, como é a razão pela qual tantas pessoas chegam a este meio e acabam por ficar. Para mim, esta abertura é o que define a cena hardcore e punk. Especialmente quando era miúdo, gostava imenso de simplesmente falar com pessoas diferentes e partilhar ideias.
P: Bem, eu sou algo céptico em relação às bandas de hardcore defenderem a sua própria cena como sendo única e diferente do tudo o resto. Há um estranho elitismo nessa visão. Além disso, agora que sou mais velho, não acho que fosse nada mau ter sido socializado na cena hip-hop, para citar apenas um exemplo. Afinal, cada um tem de se construir mentalmente por conta própria e quando se segue uma subcultura jovem cegamente, então não resta nela nada de emancipatório. No entanto, há certas coisas que eu considero especiais no hardcore e que não poderia encontrar em nenhum outro lugar. Mas todas as cenas musicais têm as suas próprias características e virtudes. Ainda que possamos ter uma relação de amor quase incondicional com o hardcore, não se deve perder de vista todas as coisas boas e interessantes que acontecem por esse mundo fora.

Embora a música seja, em última análise, uma forma de arte, que espaço acham que existe nela para o activismo e para a política? De que forma pode ser uma “arma”?
J: Isso é realmente difícil de responder. O problema é que é muito fácil soar moralista, mais ainda quando na cena hardcore que conhecemos muita gente se considera politicamente activa, e portanto já tem muitas posições tomadas perante diversas questões políticas e sociais. Nesse sentido acho difícil ser uma banda objectivamente política hoje em dia, além de que muitas delas usam isso como máscara mais do que como subversão. É também por isso que as minhas letras com o tempo se desenvolveram num sentido mais pessoal.
P: Essa pergunta é difícil, realmente. Nós somos uma banda política e inserimo-nos numa cena politizada, temos essa consciência e damos importância a essa vertente. No início tínhamos essa preocupação mais vincada, mas com o avançar dos discos ficamos algo desencantados e passamos a abordar assuntos eminentemente políticos a partir de uma visão mais pessoal. Uma canção por si só não é a revolta: naquele momento é apenas energia e catarse, mas fora dela, mais tarde, tem realmente o potencial de alimentar uma revolução. Contudo, não estou totalmente convicto de que se pode realmente levar as pessoas a pensar acerca de determinadas questões só por escrever uma música. Sobretudo quando, na maioria das vezes, estás a “pregar aos convertidos”. De que vale falar sobre direitos dos animais a uma multidão de vegetarianos? Recebes aplausos e esses vegetarianos podem até gostar mais de ti agora, só que isso para mim são tretas que nada têm que ver realmente com educação! E mesmo que alguém altere o seu ponto de vista ou o seu estilo de vida, como vais saber se foi resultado da sua introspecção ou se é apenas uma tendência confortável, uma moda? O desafio é levares as pessoas a reflectir sobre o que dizes e tirarem elas próprias as conclusões.
As questões ligadas aos direitos de autor e à propriedade intelectual têm sido muito debatidas, especialmente a propósito dos acordos internacionais que ameaçam implementar sérias medidas de vigilância sobre o uso da Internet. Enquanto músicos, qual é vossa visão sobre o assunto?
P: Bem, em última análise, enquanto banda tu queres que as pessoas ouçam a tua música e assistam aos teus concertos. Assim, falando por mim, não me interessa qual é o meio que as pessoas usam para nos ouvir. Apesar disso, pessoalmente prefiro discos de vinil e neles que gasto quase todo o meu dinheiro, porque para mim essa é forma totalmente diferente de ouvir música, mas eu não vou dizer a ninguém que vias deve usar para ouvir a música de que gosta. Obviamente que para a nossa editora a situação não é assim tão sim
