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Entrevista Sandra Silva

“O Festival Silêncio pretende sublinhar papel vital da palavra na criação artística.”

Em vésperas de arrancar mais uma edição do Festival Silêncio, fomos saber como se trabalha nos bastidores de um dos mais importantes certames de verão.

O festival quer "devolver o poder à palavra dita...".

Por António M. Silva 26 de Junho, 2012

Música e palavra. Dois componentes tão diferentes e, ao mesmo tempo, inalienáveis. De mãos dadas na história, encontram-se agora numa espécie de reunião definitiva a que se decidiu chamar Festival Silêncio. José Saramago e William Burroughs são alguns dos autores em destaque numa edição que vai fazer subir ao palco os Pop Dell’ Arte e os Mão Morta. Para nos dar a conhecer melhor este festival, falámos com Sandra Silva, um dos membros da organização.

Como é feita a programação para um festival como o Silêncio que, apesar de ter música, assenta a sua filosofia na palavra?

O Festival Silêncio pretende cruzar a palavra com as diferentes artes e sublinhar o papel vital desta na criação artística. Assim, é através da palavra que os escritores, músicos, actores, artistas plásticos e cineastas convidados irão partilhar com o público a sua própria visão do mundo.

Diriam que o vosso objectivo com o Festival Silêncio é a divulgação da obra escrita?

O objectivo do Festival Silêncio é devolver o poder à palavra dita, permitindo aos criadores apresentarem projectos ou práticas artísticas que explorem essa íntima relação com a linguagem.

O festival Silêncio tem sido prolífero em criar colectivos e acontecimentos únicos e efémeros. Este ano, por exemplo, vão ter os Irmãos Demónio. Que nos podes dizer sobre eles?

Neste espectáculo, criado especialmente para o festival, os músicos Filho da Mãe, Joaquim Albergaria e Hélio Morais, juntam-se a Kalaf num concerto em que em que a palavra vai estar presente em textos que reflectem o que se escreve e diz em português hoje, como os anúncio publicitários, os tweets, os post dos blogues ou uma notícia de jornal.

Mais tarde no Festival, os Pop Dell’ Arte e os Mão Morta vão ter espectáculos conceptuais em torno de obras diferentes. O que é que escolhem primeiro: as bandas ou as obras?

Depende muito dos projectos e dos artistas convidados, mas tanto os Pop dell´arte, como os Mão Morta elegeram os textos e autores que irão incluir nos seus espectáculos.

Normalmente chegam de uma banda a uma obra ou vice-versa, ou dão à banda liberdade para escolher a interpretação?

Nos espectáculos de encomenda, existe um diálogo muito estreito entre os programadores do festival e os músicos e compositores convidados, mas a interpretação e a componente artística (música, vídeo, cenografia, etc) fica geralmente nas mãos dos artistas ou bandas.

Qual era a obra que gostariam de ver interpretada e por que banda?

São muitas as obras que gostaríamos de ver trabalhadas no festival, a nossa função é seleccioná-las em conjunto com os artistas envolvidos e potenciar os cruzamentos interdisciplinares tão característicos deste festival.

Alguma vez tiveram um não a alguma proposta?

Já. Nem sempre o orçamento e tempo de produção são conciliáveis com a disponibilidade dos artistas.

Vão receber em uma das duplas mais pertinentes no que ao cruzamento do spoken word com as novas tendências musicais diz respeito, os 2Morrows Victory. Para quem não os conhece ou se move fora dos meandros do spoken word, que podes dizer sobre eles?

Como referimos no dossier de imprensa, os 2Morrows Victory são um colectivo de Hip-Hop e spoken word, de Southwest London, fundado por Rafael Powell e Greg B. Com influências tão diversas como Madlib, Little Dragon, Coldplay e James Blake, a sua sonoridade é bastante diferente do hip hop comum. Foi um espectáculo que tivemos a oportunidade de assistir em Londres e considerámos de imediato pertinente na programação do festival devido à forte afinidade com a spoken word e à sua sonoridade muito actual.

Consideras que o spoken word, a poetry slam e o rap são modalidades pertinentes em 2012?

Tanto o slam, como a spoken word e o hip hop são muito importantes na cena musical contemporânea pois espelham a vitalidade dos movimentos em torno da palavra dita.

O que dirias que diferencia estes géneros, por exemplo, das canções de intervenção dos anos 60 e 70?

A música de intervenção da década de 60 e 70, sobretudo em Portugal, estava directamente relacionada com uma oposição ao regime fascista e era muito marcada pela censura. Hoje, os movimentos como o slam e o hip hop usam a palavra como forma de crítica social e política, mas já sem os espartilhos da censura e dando voz a outras causas contemporâneas.

Além de Capicua, 2Morrows Victory ou Joshua Idehen, a quem (ou a quê) é que devemos estar atentos no segmento do Festival?

Os espectáculos de André Gago e a Beat Hotel Band (Teatro Instável) que recupera cinco poetas essenciais do que ficou conhecida como a Beat Generation: Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Gregory Corso e Lawrence Ferlinghetti e o de António Jorge Gonçalves e Flak, um recital de palavras desenhadas em tempo real, usando como partitura o livro de artista A Invenção do Dia Claro.

Vão ainda existir várias palestras, teatros, debates e conversas pela cidade de Lisboa. É uma programação difícil de conciliar com a vertente mais visível, que acaba por ser a música?

Nesta 4ª edição regressam as “Conversas do Silêncio” que convidam à reflexão sobre cruzamento da palavra escrita e dita com as outras artes e nas quais participam, entre outros, Nuno Artur Silva, Kalaf, Mário Zambujal, João Botelho, Helena Vasconcelos, Rui Zink, Teresa Villaverde, Margarida Gil, Manuel San Payo, que irão debater temas como o Poder da Palavra, Livros de Artista, Crónicas do Cais do Sodré, Poesia e Lingerie ou Palavras com Cinema Dentro.

A nova rubrica Palco da Palavra na esplanada do Povo irá receber, entre muitos outros, Maria do Rosário Pedreira, João Luís Barreto Guimarães, B. Fachada, Aldina Duarte, Miguel-Manso, Margarida Vale de Gato para conversas informais sempre com a palavra em pano de fundo.

Neste campo das palestas, quais é que consideras essencial?

À parceria com a Fundação Saramago, na qual iremos homenagear José Saramago através da mesa redonda “É tão fundo o silêncio” com Nuno Júdice, Anabela Mota Ribeiro e Miguel Gonçalves Mendes, de “Ler Saramago”, uma leitura de poemas aberta ao público e do documentário José e Pilar com apresentação do realizador e da Pilar del Río.

Por fim, queres dizer mais alguma coisa que nos possamos ter esquecido de perguntar?

É importante sublinhar a programação do Word Cut Doc que para além dos documentários sobre Julia Kristeva, Marguerite Duras, Herberto Helder, Maria Velho da Costa, Assis Pacheco, apresentará a estreia nacional do filme Word Of Advice: William S. Burroughs On the Road.