10 discos PA’s semanas de verão
A companhia sónica para os dias quentes que se avizinham, para as noites quentes que os polvilham e para os tempos mortos por que ansiávamos.

A silly season instalou-se nas nossas casas e não há razão para continuar a insistir no que não tem remédio. O verão tomou conta das nossas vidas, o calor destila-nos as vontades e só nos apetece beber aquela limonada que está ali a espreitar e degustá-la com música certa. Eis os 10 discos que o PA’ considera ter a tão desejada música certa para as semanas de ausência:
Alt-J – An Awesome Wave

A onda incrível dos Alt-J vive do sabor do tempo quente. Ou, melhor, padece do grave problema de aquecer demasiado o ambiente a qualquer altura, com a sua sinceridade embevecedora – “please don’t go, I love you so”, ouve-se em Breezeblocks, ou “something good tonight made me forget about you for now” como nos cantam em Something Good cativa quase tanto quanto a cheia de alma Matilda ou a festiva Taro. Uma banda sonora que conseguirá acompanhar as memórias dos amores de verão.
ALTO! – ALTO!
O rock é o mais primitivo dos chamamentos das músicas. É quebrar amarras e ir para a rua fazer o que se quer. Para os ALTO!, no primeiro longa-duração, tratou-se de fugir de Portugal e fazer viagens, conhecer a Europa – ou são essas crónicas das cidades do Velho Continente que os barcelenses contam, sempre com a ironia a pulsar no peito. Como se não bastasse, e olhando alguns problemas de produção de soslaio, o disco homónimo do colectivo que junta membros de Black Bombaim e Green Machine tem a pujança para e a genuinidade dos básicos – e fazer rock assim não é algo que se ensine, é algo que se quer.
Beach House – Bloom

A Victoria Legrand e o Alex Scally (e a SubPop) foram espertos quando decidiram lançar isto em Maio. Este é um daqueles irrefutáveis discos de Verão e tem-lo sido desde que saiu cá para fora. Ao quarto álbum, os Beach House não mudam, mantêm-se coerentes com a sua pop toda etéreo-sonhadora e só isso chega para fazer de Bloom um bom companheiro de uma passeata pela praia ou de um outro devaneio estival. Malhas como a Myth ou a New Year são demasiado boas para não serem ouvidas.
Gala Drop – Broda

Os Gala Drop têm em Broda um mundo à espera de ser explorado. Entre os ritmos acelerados da fusão Weather Report e as reacções à la Santana (o bom, dos anos 60) da guitarra do ilustre convidado Ben Chasny, o novo registo de três músicas da banda lisboeta tem uma vibração electrizante no contínuo da sua quase meia-hora de duração. Uma narrativa bem recortada e com todos os ingredientes de uma história clássica, fruto de um choque cultural que tem desde os ritmos mais africanos aos motivos electrónicos mais europeus.
Ghosting Season – The Very Last of the Saints

Nem só de sol se faz um verão, nem só a soar as estopinhas se alinham corpo e mente. No caso dos Ghosting Season, nem só para dançar servirá a música electrónica. Não é que o duo britânico não consiga provocar pandemias ao nível dos membros inferiores, pelo contrário, músicas como Far End Of The Graveyard e Time Without Question provam que o IDM tem um D de “dance”. Mas e electrónica de frequências altas de The Very Last of the Saints é uma saborosa forma de esticar a noite mais um pouco, e da forma que se quiser. É a magia de se fazer electrónica com um paladar biológico – o orgânico das guitarras molda-se sempre aos corpos.
Frank Ocean – Channel Orange

E, de repente, este menino fez-se figura maior dos Odd Future. Já ninguém quer saber do Tyler, The Creator e poucos se importam que o Earl, The Sweatshirt tenha voltado de Samoa, depois de a sua mãe lhe ter decretado exílio. Frank Ocean é a figura do momento e Channel Orange, o seu álbum de estreia, anda a espalhar-se como fogo selvagem – a confissão da sua bissexualidade ajudou certamente ao hype. Nele, encontramos um R&B bem feito, requintado com a smoothness do soul, que não sendo nada de extraordinário, até vai bem com o Verão.
High On Fire – De Vermis Mysteriis

Curtir o Verão não parece estar nos planos de Matt Pike. O chefe dos HoF e senhor-riff dos Sleep está em reabilitação, um internamento provocado pelo seu vício no álcool. Já nós sempre podemos escutar aquilo que Pike e os seus dois comparsas fizeram em De Vermis Mysteriis, o novo filho pródigo da discografia dos High On Fire. Nele, a banda reencontra o seu elevado nível: velocidade, peso, sujidade – tudo coisas que convenceram os Mastodon a existirem. Se forem até ao Resurrection Fest, por exemplo, cumprimentem o Kurt Ballou (estará lá com os Converge) e dêem-lhe os parabéns pela produção deste disco.
Marriages – Kitsune EP

Os Marriages são mais um divórcio do que o nome possa dar a entender. Reunindo três ilustres membros de Red Sparowes no formato mais simples que o rock permite, a “cisão” amigável com os outros pássaros resultou num rock psicadélico e de uma bela soberba, que a guitarrista-vocalista Emma Ruth Rundle tempera com a sua voz adocicada. No fim, encontramo-nos entre os devaneios post-rock, as vivas cores dos efeitos psicotrópicos da guitarra e as melodias cativantes da pop. Este casamento é ilegal em pelo menos 134 países, mas é tão bonito que nos faz ponderar o amor-livre.
Nas – Life is Good

Há muito pouca gente no hip-hop tão importante quanto o Nas. O Illmatic é só, provavelmente, o melhor álbum de rap de sempre. Foi capaz de recolocar, a par do 36 Chambers dos Wu-Tang e do Ready To Die do Biggie, a East Coast nos eixos e dar luta ao G-funk do Dre e à gigantesca popularidade do 2Pac. Dezoito anos depois de ter dito que a vida era uma cabra, o Nas diz agora que ela até é boa e vale a pena, mas nem por isso este disco tem um feeling moderno e descaradamente feliz. Pelo contrário, Life is Good traz consigo um arrepiozinho de nostalgia. Cheira a old school: flow, beat e até a presença de figuras como o Large Professor dão contornos 90s a este álbum. Nele, também encontramos um belíssimo feat com a Amy Winehouse. No fundo, se querem ouvir hip-hop do bom neste verão, rodem Life is Good.
OM – Advaitic Songs

Já por aqui referimos o Matt Pike e, como ninguém sabe por anda o Chris Hakius, falemos também do Al Cisneros. Aquele que é muito provavelmente o melhor baixista do stoner/doom até tem dado uns concertos com Sleep (saudades, Roadburn), mas é nos OM onde continua a centrar a sua ilimitada força criativa. Aquilo que começou por ser um duo (ele e Hakius, lá está) está transformado num trio (Rob Lowe a.k.a. Lichens já faz parte da mobília) e os OM nunca soaram tão diversificados e policromáticos como em 2012. Advaitic Songs mantém a linha de baixo como chave-mestra, mas à volta dela ouvimos cada vez mais adições, fazendo com que este projecto suplante já a fronteira do metal – se é que alguma vez ela existiu. Se gostavam de ir este Verão até Jerusalém ou de fazer uma visita às Pirâmides de Gizé e não podem, coloquem Advaitic Songs e deixem-se transportar. De caminho, levantem as mãos e façam inveja a Emil Amos – o baterista dos OM desde 2009, partiu há dias o braço a andar de skate.




