Editorial de Outubro/12
De Portugal para o mundo, as diferenças são abismais. Há muito para aprender com os radicais de hoje, sem dúvida.

Adriana Xavier e o seu polícia fotogénico a brincarem às manifestações.
Portugal é um país curioso. Em tempos em que nos exigem sacrifícios por uma ideia, uma ideia simples (como é o Estado, ou a Nação, e essas bagatelas todas), e em que esses sacrifícios são feitos não por essas ideias, mas por pessoas, como eu, que escrevo este texto, como tu, que o lês, ou como o teu vizinho, que se calhar nem dinheiro tem para pagar a internet que lhe permita ler isto, percebemos que as prioridades estão todas ao contrário.
Por menos, os espanhóis viraram Madrid do avesso, lutaram contra o que os fazia sentir oprimidos, formaram guerrilhas... nós temos raparigas a abraçar polícias e a ser entrevistadas por revistas cor-de-rosa; temos um tipo que andava à procura de uma rapariga que nunca existiu, protagonizando uma história da carochinha criada para fins publicitários, uma narrativa tão absurda quanto, evidentemente, falsa. Esse mesmo tipo andou, todo contente, a colar cartazes por Lisboa e a proclamar frases tão bonitas quanto “naquele momento, para mim, não houve austeridade, não houve mais nada.” Infelizmente, para uns tantos milhões, a “Diana” dos perfumes não tira a fome a ninguém, mas distrai muita gente dos seus problemas.
Por se ter falado em aumento de propinas no ensino superior do Canadá, os estudantes do Quebec barricaram-se nas suas faculdades, organizaram-se por um bem comum, travaram uma guerra contra homens de negócios que se recusavam a ver homens e mulheres nas pessoas que estavam a espremer. Como acontece aqui, aliás, em que nos exigem impostos em troca de, bem, em troca de nada, mesmo sabendo que é para isso que os impostos servem. Mas há a gritante diferença, aqui, de um estudante que dá a sua opinião ser expulso da sua própria faculdade, a qual paga a peso de ouro, como se de um cliente se tratasse, pelo segurança pessoal do Passos Coelho e identificado pela polícia (que anda totalmente sedenta de conhecer toda a gente em Portugal e fazer novos amigos, a julgar pelo que é preciso para se identificar qualquer pessoa que consiga articular palavras – não é preciso mais para insultar um governo que já vai para baixo de péssimo). Sim, nem ao capitalismo sabemos brincar, que nem os clientes tratamos bem. O director dos ISCPS poderá dizer-vos isso pessoalmente e bem; pelo meio, ainda vos conta como tem estreitas ligações com o PSD e como, por isso, tem de sancionar o seu "cliente".
São tempos desesperantes, que todo o mundo vive, em que ideias valem mais do que pessoas. Desses tempos, sempre ouvi dizer que viriam mentes radicais. Este ano tem sido assim: os Converge vão lançar um novo disco, assim como os Neurosis. Mais importante para este contexto, os Godspeed You! Black Emperor, que nasceram em Montreal, no coração do revoltado Quebec, com a vontade incendiária de despertas as pessoas com que coabitam para a realidade destroçada em que vivem, anunciaram o regresso aos discos. Uma década depois de Yanqui U.X.O., uma obra-prima da música moderna, teremos Allelujah! Don’t Bend! Ascend!. É uma mensagem clara, só intensificada por títulos como We Drift Like Worried Fire, sintomático de um mundo em decadência, que desperta a atenção de todos nós. O que nos diz, é simples: não se verga a lutar por aquilo que é, verdadeiramente, nosso.
Pelos números, tiram-nos tudo, mas não nos conseguem tirar a humanidade e a sua expressão mais natural. Pelo contrário, só a aguçam. Isso sente-se à nossa volta, num pais que propõe um Outubro tão incrível quanto este, perante a pior situação económica de sempre: temos o Semibreve a arrancar o mês, um Out.Fest a jogar fora da caixa e um Amplifest especial o sufciente para nos devolver a revolução dos GY!BE. Isto, sem contar com os inúmeros concertos que se seguem até ao Halloween. Ainda não nos conseguiram tirar a arte. Boa sorte com isso, Vitor Gaspar.
Infelizmente, não vamos poder falar com os GY!BE sobre o novo disco, nem sobre o que os levou a gravar músicas inéditas, mas que já circulavam em bootlegs. Porque, felizmente, nem todos os números do mundo, com todos os zeros que a nossa imag

