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Opinião

Editorial de Setembro/12

Setembro marca o reinício de actividades aqui pelo PA'. E inaugura, também, a sempre incontornável campanha eleitoral norte-americana.

Por Emanuel Pereira 5 de Setembro, 2012

A crise tem consequências nefastas, já sabemos. Mesmo que delas nos quiséssemos esquecer, bastaria uma conversa de café ou cinco minutos a ouvir/ler um qualquer opinion maker para nos re-sintonizarmos com uma já perpetuada depressão. Não vale a pena fugir. Não há um raio de um tema que não desague em crise, desemprego e Miguel Relvas. Já nem gosto de abrir as caixas de comentários do Público: há sempre um tipo que se lembra de comparar a sonda Curiosity às equivalências do ministro "of all things".

Contudo, de um dos mais tristes resultados desta falência económico-financeira ninguém fala. A crise arruinou o espaço para os faît-divers políticos. Dela, da crise, sempre se falou, é verdade. Mas, há uns dez anos, o pessoal desfrutava da metáfora da tanga e reutilizava infinitamente o cognome "O Cherne". Dívida externa? Ninguém queria saber. Défice? Ah... Uhm... Seis vezes três dezoito... É fazer a conta. O Avelino Ferreira Torres invadia aos pontapés o Estádio apadrinhado com o seu próprio nome, em defesa do Futebol Clube do Marco; o Valentim Loureiro oferecia microondas e bilhetes para o Tony Carreira; o Francisco Assis levava com sacos de lixo na testa, em plena noite de Felgueiras. Saudades. Agora, tudo desagua na "maior depressão desde 1929" ou na "maior crise desde a II Guerra Mundial". A austeridade trouxe para a ribalta o ridículo e insípido sorrisinho de Passos Coelho, o monocórdico Vítor Gaspar capaz de falar à velocidade dos acordes dos Sunn O))) e um António José Seguro menos carismático que a tuneladora "Micas".

Não percamos a esperança, todavia. Em Novembro deste ano teremos as eleições norte-americanas e, por esta altura, a campanha já estalou. E, lá, a coisa é a sério. Ninguém quer ouvir a escabrosa sentença "vivemos acima das nossas possibilidades": a campanha para as presidenciais faz-se do (bom) ridículo. Porque, no fundo, o duelo entre republicanos e democratas é um falso combate. Lembro-me sempre de quando o Bill Hicks dizia I'll show you politics in America. Here it is, right here. "I think the puppet on the right shares my beliefs." "I think the puppet on the left is more to my liking." "Hey, wait a minute, there's one guy holding out both puppets - basicamente, é isto. Daí que não me assuste por aí além se Mitt Romney for eleito: o mundo já aguentou dois mandatos do Ronald Reagan e três mandatos da família Bush. E cá estamos. Tão pouco me surpreende que Obama tenha falhado redondamente na recuperação da economia dos Estados Unidos. A grande conquista destes quatros anos de Barack Hussein foi, de indirecta forma, ter feito do Randy Marsh uma das melhores personagens do South Park.

O que interessa na campanha eleitoral são momentos como o de há cinco dias atrás, na convenção republicana. A emissão entra em directo e de imediato regozijo-me com os sorrisos perfeitos das mulheres dos candidatos. Perturbadores, de tão perfeitos. Quase que aposto que escondem anos de traumas e terríveis segredos. E regozijo-me porque sei que os sorrisos são apenas o aperitivo. O prato principal chega depois. No palco, uma cadeira. Atrás, os ecrãs mostram um vulto que nos remete para The Good, The Bad and The Ugly. Ui. Será que...? É mesmo. Clint Eastwood entra em cena, um dos puro-sangue norte-americanos. Um senhor, uma lenda. "Grande jogada dos republicanos" é o primeiro pensamento que acorre. "Não, o melhor é esperar para ver o que vai sair daqui". E um sabor agridoce estatelou-se-me no espírito.

Aos 82 anos, Clint Eastwood assumiu, provavelmente, o papel mais ridículo da sua vida. Apeteceu-me logo gozar com ele, mas... É o Clint Eastwood. Vê-lo num monólogo cheio de vacuidades com uma cadeira vazia, simbolizando a ausência de Obama durante estes quatros anos de mandato, teve tanto de triste como de um prato cheio para os guinoistas do Jon Stewart. Até o Romney se riu. Mas não devia. Acusou o Presidente de não ter aprendido com os russos no que toca a invasões ao Afeganistão, quando foi Bush filho que invadiou o país; disse não ser boa ideia um advogado tornar-se presidente, quando Mitt foi, tal como Obama, formado na Faculdade de Advocacia de Harvard. E a lista continua: Abraham Lincoln, Thomas Jefferson, John Adams, Franklin Roosevelt, Chester Arthur ou Bill Clinton - todos advogados. Clint... Se era para saíres do teu trono de "legend", podias, pelo menos, ter preparado melhor os ataques ao homem que levou o cão-de-água português para a Casa Branca.

Mas, reafirmo, a campanha vale pelo ridículo e, para já, os republicanos vão à frente. Para além de Eastwood, também houve por aí um candidato ao senado que afirmou que das violações não resultam fecundações, pois o corpo da mulher tem um mecanismo que assim as evita. Espectáculo. Espero ainda que o Paul Ryan, candidato à vice-presidência, dê um ar da sua graça e profet