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Opinião

Marca Branca #12 - No princípio era o verbo

Por aqui já falámos de música, filmes, festivais e, até, de formas de vida livres, mas a liberdade começa onde a bíblia nos ensinou. Por isso, hoje falamos de livros.

Por Marca Branca 18 de Setembro, 2012

No princípio era o verbo, já se sabe. Daí que não seja de estranhar que esta coisa da liberdade na internet também tenha um reflexo na literatura. Afinal, a indústria livreira foi uma das primeiras a acusar os nefastos efeitos da contrafacção/pirataria. Quando, nos anos 80, se acumulavam fotocopiadoras por esse país fora, o calor dos toners e tinteiros fez soar os alarmes dos mais sensíveis defensores de literatura, mas parece que a libertinagem das fotocópias, que tornava o livro académico acessível ao estudante comum, acabou por acalmar.

Ainda assim, parece que a lição ficou bem estudada e o universo dos livros acabou por ser um dos que melhor se adaptou ao mercado de entretenimento digital, abraçando leitores de e-books, em vez de os ostracizar. Até agora, o investimento parece estar a valer a pena, representando já 30% do volume de negócios desta indústria nos EUA, por exemplo.

O problema da palavra que levantamos aqui não é a sua rentabilidade, nem sequer o facto de gostarmos de ver lombadas alinhadas por alturas e/ou cores nas estantes de qualquer sala. O que queremos lembrar aqui é que, na era dos bits e bytes, a palavra foi a primeira coisa que conseguimos fixar no éter virtual e isso leva-nos, naturalmente, à questão que nos traz aqui todas as semanas: a palavra chegou à internet e começou a ser remisturada, independentemente de assumir uma postura artística ou informativa.

Além de diversos repositórios de obras online - Archive, Open Library, Brasiliana USP, entre tantos outros exemplos - entre .net e .org começaram vários trabalhos colaborativos ligados sobretudo ligados a problemáticas relacionadas com o direito de autor no âmbito digital. Entre outras opções disponíveis, nós preferimos destacar duas em português.

Do outro lado do Atlântico, chega-nos “Para Entender a Internet”, um guia rápido para compreender alguns dos conceitos elementares relativamente a práticas sociais na rede, como “spam”, “web 2.0” ou “rede social”, entre muitos outros. Organizado por Juliano Spyer, e editado em 2009, é fruto do trabalho de 38 autores (académicos, políticos, activistas cibernáuticos e outros que tais), mas não só. Ao que parece, o livro está em permanente versão beta, incitando os leitores a dar o seu input sobre cada texto através do Twitter, de maneira a torná-lo cada vez mais completo. Disponível através de uma licença Creative Commons 2.5, atribuição não comercial e partilha pela mesma licença, pode ser livremente copiado, distribuído e alterado, desde que os trabalhos derivados sejam posteriormente partilhados sob as mesmas condições.

Já deste lado do oceano, editado também em 2009, o livro “Copyleft - Manual de Uso” trazia o selo da editora Traficante de Sueños e fazia-se valer como uma obra de referência no que toca ao copyleft nas suas variadas dimensões, dando destaque a temas como o software, a música ou o direito. O único senão? Estava escrito em castelhano. Felizmente para nós, conhece agora uma versão traduzida em português, disponível para download na íntegra ou por capítulos. Disponibilizada em Agosto deste ano, a tradução foi o resultado da colaboração de Arthur "El Invisible" Jodorowsky, Daiane Hemerich, Felipe Burd, Teo Oliver, Cecília Rosas e Marcello Malgarin Filho.

Já o Marca Branca e todos os seus conteúdos - artigos semanais aqui no PA e podcasts incluídos - estão licenciados em Creative Commons, fomentado a partilha, a divulgação e a recriação de cada partícula que partilhamos na internet. Quem sabe um dia, também organizamos uma espécie de livro.

* Fotografia licenciada em Creative Commons por Amy Loves Yah.