Black Bombaim no Roadburn - viver um festival único
Nestes últimos dias foi confirmada a presença dos Black Bombaim no Roadburn, uma óptima notícia. Se não conheces o festival, o PA' explica-te porquê, então, que a notícia é tão boa e o que tens perdido.

O Roadburn. Não foram poucas as vezes que tal festival foi mencionado neste espaço. Esta não será a última, mas é certamente especial. No passado dia 30 de Agosto, quinta-feira, a organização do festival holandês quebrou a barreira que tinha traçado à volta do nosso quintal e deixou entrar a primeira banda portuguesa para a próxima edição dos cartazes que tem vindo a reunir, incrivelmente, desde 1995. A 18ª edição do festival não só tem confirmada uma actuação especial de Godflesh – desta feita inteiramente dedicada ao álbum Pure – como tem como curadores do terceiro dia do evento os magnânimes Electric Wizard, que esgrimam riffs pelo pódio de “melhores Black Sabbath” desde que os originais se separaram.
A juntar a essas contas está o trio de Barcelos, nome maior da Lovers & Lollypops, Black Bombaim. Por muito que o vosso entusiasmo nacionalisto-patriótico esteja nos píncaros, não terá, certamente, qualquer tipo de comparação com o de uma banda que atinge, definitivamente, o ponto alto da sua carreira até agora. Tocam a 18 de Abril, o primeiro dia da edição de 2013 do festival, ainda sem sala definida.
“Para nós, o Roadburn é a Meca de tudo o que é música pesada, é o baile de finalistas da universidade dos estudos Iommicos,” diz-nos Tojó Rodrigues, baixista da banda. Não é por acaso que, ao longo de 18 edições que contaram com nomes tão absolutamente incontornáveis como Sleep, Neurosis, Shrinebuilder, Fu Manchu, Orange Goblin, High On Fire, Sunn O))), OM, Goatsnake, Hawkwind, Melvins, Cult of Luna, Killing Joke, Yob e por aí fora, o mês de Abril na 013 Poppodium de Tilburg tenha recolhido o título de Home of the Riff. Esta notícia é, portanto, “o culminar perfeito [de um] bom ano” para os Black Bombaim.
Titãs na Holanda
“O Titans vai ser o prato principal,” adianta Tojó, deixando claro que não vai haver grandes surpresas na manga. “Vamos fazer o que fazemos sempre, dar o nosso melhor e esperar que as pessoas gostem [do que estão a ver e ouvir].” Talvez haja uma surpresa (“vamos tentar não estar muito pedrados, o que pode ser uma surpresa.”), mas essa será totalmente motivada por uma nova legislação, em vigor a partir de 2013, relativamente às famosas Coffee Shops. O que não será, de todo, problemático para o festival – mas já lá vamos.
O que não é, de todo, uma surpresa é a vontade dos Black Bombaim passarem pelos palcos da 013. Desde o início do PA’, e depois das primeiras conversas com os autores de Titans e Saturdays and Space Travels, que esse desejo está expresso nos propósitos da banda. Disseram-nos, em 2008: “Sabemos que o ponto mais alto que podemos ter, na nossa carreira enquanto músicos desta banda, é tocar no Roadburn. Isso é um desejo, é o ponto máximo. Muitas bandas dizem que é actuarem no Royal Albert Hall, num alto festival. Roadburn – para nós é o máximo.”
A pergunta é, portanto, se a espera perdeu pela demora. Depois de um EP, depois de um disco de duas malhas e agora com o duplo disco Titans, uma odisseia cheia de convidados e de riffs tão demolidores quanto psicadélicos, os Black Bombaim estão no ponto certo para actuar no palco dos palcos para quem, como eles, gosta é de abanar a cabeça e proporcionar altas viagens pelo espaço. E o baixista da banda sabe-o: “Há imenso tempo que sonhamos em fazer parte da experiência Roadburn, mas creio que este último disco foi a alavanca certa e necessária para isto acontecer.”
Ainda que em Abril próximo seja a passagem pelos Países Baixos que nos interessa, não será a estreia dos stoners de Barcelos pela zona do Grande Dique. Na sua última digressão europeia passaram lá e, em Novembro próximo, vão voltar para actuar no festival Le Guess Who?, em Utrecht, onde deverão partilhar palco com nomes bem mais ligeiros que os portentos de Tilburg – Destroyer, Julianna Barwick, Sharon Van Etten, Beak, Colin Stetson e Matana Roberts, entre muitos outros. Só que nem nesse ambiente os autores de Titans se deverão coibir de adicionar distorção à farra: “Vamos tocar numa noite promovida pelo DJ Fitz. Nas festas dele pode tudo descambar muito facilmente para o modo ‘Party Hard’. Vamos ver...” De resto, as portas da Europa abriram-se verdadeiramente para o trio, que na próxima primavera vai galgar quilómetros pelo Velho Continente em direcção a Tilburg, numa “pequena epopeia pelas salas mais chungas e mal-cheirosas da Europa,” adianta Tojó, rematando: “Foi esta a vida que escolhemos.”
O Roadburn
Sobre o festival, não há Wikipedia ou descrição que lhe faça jus. As palavras são traiçoeiras quando um evento é bom o suficiente para sobrepor nomes como Celeste e Doom, ou Sleep e Tombs, à semelhança do que aconteceu na edição deste ano. E a lista de sobreposições dolorosas continuaria, cartaz dentro, salvaguardando a ressaca oficial que é o quarto dia, mais conhecido como Afterburner. Eduardo Pinto é já um visitante habitual, contando com três passagens pelo edifício 013. Para ele, este “é um dos festivais de culto (...) que só se consegue compreender verdadeiramente depois de fazer parte daquele mundo pelo menos uma vez. E cuidado, não é fácil ficar-se apenas por uma ida,” avisa.
Já António Pita, que este ano se estreou nas lides de queimar estradas e neurónios na Holanda, faz eco a algo que ouviu nos Países Baixos: “o espírito dos 60’s não morreu, simplesmente mudou de forma e está todos os anos em Tilburg, no Roadburn. Eu senti esse peace and love,” admite, recordando imediatamente o episódio em que um homem “alto, largo e cheio de tatuagens,” que estava à sua frente num concerto, lhe pegou nos ombros e passou para trás de si, explicando que ia ver bem de qualquer forma.
E todas as descrições, como ficou em cima sublinhado, culminam na mesma opinião: “Tens que viver o festival como um todo e não olhar para o cartaz como um conjunto de concertos, porque o Roadburn é O festival,” explica acertadamente o quase-veterano Eduardo, numa ideia que é, claramente, partilhada por quem se desloca à Holanda em Abril. O ambiente do festival exala por todos os poros essa sensação especial de consenso: “Quem vai, vai pela música e não porque vai estar uns dias com os amigos longe dos pais. A maior descarga de adrenalina não é durante aquele concerto que esperavas ver há anos (ou que pensaste que nunca ias conseguir ver). É, sim, o momento, depois de uma directa à espera dos bilhetes serem colocados à venda, em que o festival está esgotado e tu conseguiste garantir a tua presença. Aí respiras fundo e vais ver se os teus amigos também conseguiram.”
Na verdade, uma vez lá, tudo parece um sonho hippie, em que ninguém se sente enganado e em que tudo vale. Tanto podemos entrar numa igreja e ouvir a maior javardice black metal da história, como ir ao palco principal e ver que está a tocar uma banda de jazz super lento, ou, melhor ainda, os OM, com as distorções num passado distante e com três mil pessoas a dançar (sim, a dançar) de olhos fechados diante de si. Este pode não parecer o momento indicado, mas a única banda capaz de arranhar uma boa descrição do Roadburn chama-se Bro-X: “Holanda, Holanda, és tudo o que eu sonhei.” Diria mesmo mais: és muito para além do que eu sonhei, Holanda. Os Black Bombaim vão partilhar da mesma opinião.





