Doclisboa'12: primeiros dias
O PA' tem estado a acompanhar o DocLx, com especial atenção à secção musical do festival.

Foi a secção Heart Beat que nos levou aoDocLisboa. Mas, no ano em que o festival convida a pensar o cinema, e, em especial, o documentário e o seu potencial interventivo, não conseguimos evitar responder à chamada da programação e espreitar conteúdos de outras secções. Sejam riscos, retratos, filmes musicais ou primeiras experiências, constatam-se questões transversais, não obstante a diversidade de conteúdos, opções metodológicas e pontos de vista que representam.
Free Radicals: a History of Experimental Film // Pip Chodorov (2010)

A secção Riscos arrancou com “Free Radicals”, uma simpática história do cinema experimental que Pip Chodorov conta na primeira pessoa. Um compêndio de filmes que encontra amenidade no tom introdutório caseiro que o realizador adopta para falar dos heróis que acompanharam o seu crescimento intelectual: Len Lye, Stan Brakhage, Robert Breer, Ken Jacobs, Stan Vanderbeek e Jonas Mekas integram este elenco de ilustres homens de experiências. É uma história feita de pessoas, ideias e imagens mal compreendidas no seu tempo, que traz a estética, pela primeira vez, para o nosso percurso pelo DocLx, aqui posta radicalmente ao serviço da satisfação do impulso criativo.
O filme é composto essencialmente por entrevistas a estes realizadores, para quem a criação era uma urgência, e por excertos dos seus próprios filmes, filhos amados mas deslocados, quer da indústria do cinema, quer do circuito das galerias de arte. Esta alternância revela-nos um programa feito de riscos, do confronto com críticas severas, e também de um sacrifício pessoal que pouco importava quando a arte estava primeiro, e a que o companheirismo ajudou a fazer frente.
Visões de Madredeus // Edgar Pêra (2012)

Embora o ritmo tenha um papel fulcral nas composições dos realizadores que eram assunto no filme anterior, não faz tanto sentido usá-lo para falar de composição musical como de composição visual. Já em Visões de Madredeus, Edgar Pêra tricota virtualmente as duas componentes de forma que não faz sentido separar a música enquanto assunto do filme, da música enquanto impulso visceral para a representação visual.
O filme que estreou no Sábado passado é filho do encontro de dois egos. Por um lado, os Madredeus, que vemos envelhecer com a música e com ela ser amados por todo o mundo. Uma diegese por que a banda quase nem é responsável, a não ser quando está em palco, ou a preparar-se para nele entrar. À medida que passa por sítios tão diferentes como Barcelona, Budapeste, Edimburgo, Londres, Macau, Paris ou Queluz, o realizador pede ao público que reflita sobre as sensações que a música da banda evoca, para encontrar a nostalgia e a melancolia como lugares comuns, mas também toda uma rica série de outros termos que refletem a diversidade cultural do público a que chegou. Palavras que são depois usadas como sussurros omnipresentes em todo o filme.
O segundo ego é Edgar Pêra, que os músicos encontram e cumprimentam nos bastidores, ao longo de vinte anos; que foca a imagem no espelho do camarim; que deixa a imagem emocionar-se pela reverberação das cordas ou pela limpidez da voz que às vezes se faz ouvir a solo.
O realizador, amigo de Pedro Ayres de Magalhães, filmou os primeiros ensaios da banda, em 1987, e continuou a filmá-la daí em diante, até à tournée “Amor Infinito”, que culminou em Tóquio, em 2006, para produzir estes cine-diários dos Madredeus, como apresenta em sinopse. O filme, tal como um diário, é escrito num tom íntimo. Uma composição neurótica, impressionista, que parece desinteressada de convenções e bons-sensos, que não encontra especial correspondência na estética equilibrada entre o erudito e o popular, mais familiar aos Madredeus. Até pode parece que Pêra escolheu as piores imagens que fez nos concertos dos Madredeus e as trouxe para o filme, mas arrisco dizer que escolheu as mais coerentes, não só no plano das intenções, como no plano perceptivo.
Benjamin Smoke // Jem Cohen, Peter Sillen (2000)

O vocalista dos Smoke tinha uns dias melhores que outros, facto que o documentário de Jem Cohen e Peter Sillen, exibido Domingo no Cinema S. Jorge, aborda de maneira funcional, na alternância de imagens a preto e branco e a cores. Prevalece, perante uma intimidade complexa e um pouco ou nada mais colorida, a negritude das suas actuações ao vivo. Ecoa-nos ainda no ouvido a rouquidão de uma voz já destruída, que partilha connosco os seus medos e fantasmas mais íntimos. Não há esperança nas palavras de Benjamin Smoke (o futuro, ou a vida regrada que os outros tentaram impingir-lhe para poder lá chegar, foi coisa que nunca lhe interessou), mas o filme ganha alguma cor quando o músico fala da reaproximação à sua mãe, que só terá sido possível graças ao agravamento do seu estado de saúde, e perdemo-nos completamente na referida alternância de tons quando confessa que, ao contrário da homossexualidade ou do travestismo, o facto de ser seropositivo é coisa que vale a pena esconder, para não ter que falar muito sobre o assunto.
Feito de uma sequência de episódios e conversas que nos põem a pensar nos escolhas, nas ironias e inevitabilidades da vida, o documentário espelha as fragilidades da personalidade de uma pessoa que sempre pensou e fez o que lhe apeteceu.
Os realizadores conseguiram um belo retrato humano, onde a música está sempre presente: vê-se nas fotografias já estragadas que levam Benjamin a recordar o seu período punk; ouve-se como banda sonora; pensa-se nas suas palavras sobre onde começa e acaba a beleza; vive-se como uma condição indispensável para a vida.
Cabbagetown, o bairro de Atlanta onde vivia, é outra constante no filme que dele acaba por traçar nas entrelinhas um retrato social. É lá que Benjamin ensaia com os Smoke, por que Patti Smith, como um sonho, viria a apaixonar-se. É ela que nos pergunta já perto do fim “have you seen death singing?”. Ouvimo-la, sim. Parecia inevitável que o filme chegasse ao fim sem que terminasse a vida daquele a quem chamavam Benjamin.
O aquecimento para o filme foi feito ao som das músicas de Elliott Smith, em "Lycky Three". A curta, também realizada por Jam Cohen, regista simplesmente o cantautor a tocar três das suas canções em três locais diferentes: uma sala, um casa de banho, um velho estúdio. O problema é que mal dá para recordá-la depois do murro no estômago que é "Benjamin Smoke".
Fado Canibal // Timóteo Azevedo (2012)

"Fado Canibal" foi exibido no contexto da secção Verdes Anos, destinada a mostrar filmes feitos em contexto de formação. O filme de Timóteo Azevedo proporcionou o reencontro com a estratégia do retrato, num registo bem mais convencional e contido que a dos seus colegas de sessão, dedicados a diferentes experiências visuais, mas também mais ambicioso.
Inclui entrevistas a membros dos Mundo Cão, Peixe:avião, Pacman, Jorge Coelho, António Rafael e outras pessoas mais próximas do músico, numa tentativa de chegada à sua intimidade. Mesmo que seja inevitável constatar que essa aproximação não chegou praticamente a ser concretizada, prevalece o retrato do líder dos Mão Morta como uma personagem fascinante e uma grande influência para os músicos das gerações seguintes.
Não me Importava de Morrer se Houvessem Guitarras no Céu // Tiago Pereira (2012)

Tiago Pereira interessou-se por filmar as Chamarritas, dança folclórica açoriana, uma vez apaixonado pelas guitarras rítmicas que a acompanham. Chamou-lhes até, antes do filme ser apresentado no cinema S. Jorge, o ‘rock n’ rol’ português. Acabou a fazer uma espécie de exercício de promoção turística, de estrutura tão ritmada e repetitiva quanto as belas guitarras que são uma constante no filme.
Os depoimentos que acompanham a recolha documental são discursos bem informados sobre o contexto cultural onde surge tal tradição, o que apenas reforça a alteridade do assunto. Um outro pilar, desta vez da sequência visual, é a diversidade de paisagens: músicos locais são postos a tocar perante a arrebatadora beleza natural das ilhas do Pico e do Faial, ora verdejantes, ora vulcânicas, ora apontando o olhar do espectador para o horizonte, precedido pelo mar agitado.
Há, por exemplo, chamarritas cantadas por jovens urbanos, acompanhadas por uma banda de formato rock, ou por ritmos electrónicos, já que esta é uma tradição dita diferente, permeável às características dos tempos. Tiago Pereira registou ainda Zeca Medeiros a improvisar com a sua graça e segurança, para lembrar que o improviso é uma das características principais da letra que acompanha as Chamarritas, condição quase esquecida perante as imagens monolíticas com assinatura do realizador. O que acontece é que, no meio de tantas palavras certeiras sobre a identidade do povo, os habituais praticantes das Chamarritas, que muito teriam a contar sobre a prática na primeira pessoa mas que mal têm voz no filme, estranham-se e ficam expostos às gargalhadas da sala. A acentuar este problema está uma completa descontextualização do acto de comandar a dança que, encenado, sem ninguém a acompanhar, fica resumido à peculiaridade. Apesar de tudo isto, é preciso notar que o documentário financiado pela direcção regional de cultura do Governo Regional dos Açores é um exercício visual e rítmico que entretém, e que, por isso mesmo, vive bem sem depender de conteúdos.
O Fado da Bia // Diogo Varela Silva (2012)

O filme do mentor do projecto A Música Portuguesa a Gostar dela Prória partilhou sessão com O Fado da Bia, de Diogo Varela Silva, sobre a fadista Beatriz da Conceição, juntando propositadamente dois dos cinco filmes portugueses que este ano integram a secção Heart Beat, que se relacionam pela referência ao património imaterial nacional. Esqueçamos o fado e o interesse do filme nestes termos institucionalizados: é a sinceridade de Bia, presente na sala, que faz do filme emocionante. Frontal e sem medo de ser inconveniente, a fadista conta como foi o seu percurso pelas casas de fados lisboetas; o que pensou e pensa sobre os outros que cruzaram o seu caminho e aquilo que a incomoda nas mais novas gerações de fadistas. Perante isto, os depoimentos de Aldina Duarte, Carlos do Carmo, Carminho, Camané ou Raquel Tavares inclusos no filme, são autênticas provas de devoção e respeito por uma mulher que trata a vida por tu, sem papas na língua.
O documentário inclui algumas imagens de actuações que a determinada altura fizeram as palmas sair do ecrã e continuar a soar pela plateia do Cinema, com uma espontaneidade arrepiante. Um acontecimento tão forte que nos deixa com medo de que chegue o dia em que Bia, como confessa ter vontade de fazer, deixe de cantar. Felizmente, mesmo que tal aconteça, já há um filme que lhe faz justiça, e que ficará para a posterioridade.
A não perder nos próximos dias:
- 24/10 - A minha banda e eu // Inês Gonçalves, Kiluanje Liberdade (2012) - 19h00, São Jorge (Sala 3)
- 24/10 - From a Mess to The Masses // Antoine Wagner, Francisco Soriano (2011) - 21h45, Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira)
- 24/10 - As Canções // Eduardo Coutinho (2011) - 21h30, São Jorge, (Sala 3)
- 25/10 - Não me importava de Morrer se houvesse Guitarras no Céu // Tiago Pereira (2012) - 16h45, Londres (Sala 1)
- 25/10 - O Fado da Bia // Diogo Varela Silva (2012) - 16h45, Londres (Sala 1)
- 25/10 - Arcana // Henry Hills (2011) - 19h00, São Jorge (Sala 3)
- 25/10 - Don Cherry // Jean-Noël Delamarre, Natalie Perrey, Philippe Gras, Horace Dimayot (1967) - 18h45, Culturgest (Pequeno Auditório)
- 25/10 - Sonny rolling Beyond the Notes // Dick Fontaine - 18h45, Culturgest (Pq. Auditório)
- 25/10 - L'Opéra du Bout du Monde // Marie-Clémence Paes, Cesar Paes (2012) - 21h45, São Jorge (Sala Manoel de Oliveira)
- 25/10 - Shut up and Play the Hits: o Fim dos LCD Soundsystem // Dylan Southern Will Lovelace - 23h, LuxFrágil
- 27/10 - Visões de Madredeus // Edgar Pêra (2012) - 16h30, Cinema São Jorge (Sala 3)
- 27/10 - From a Mess to The Masses // Antoine Wagner, Francisco Soriano (2011) - 16h45, Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira)
- 27/10 - Tropicália // Marcelo Machado (2012) - 16h45, Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira)
- 27/10 - A Stravinsky Portrait // Richard Leacock (1965) - 21h15, Cinema Londres (sala 2)
- 27/10 - Arcana // Henry Hills (2011) - 21h15, Cinema Londres (Sala 2)
- 28/10 - L'Opéra du Bout du Monde // Marie-Clémence Paes, Cesar Paes (2012) - 16h30, São Jorge (Sala 3)
- 28/10 - Lucky Three // Jem Cohen (1997) - 17

