Full Blast @ Passos Manuel, Porto
Os Full Blast entraram a todo o gás e saíram a todo o gás. O mestre Brötzmann não desiludiu ninguém. E vinha com companhia pesada.

Não era preciso conhecer a banda, nem tão pouco ter visto o cartaz de promoção, para saber quem era o frontman, o líder incontestado do trio. Ver Peter Brötzmann, Marino Pliakas e Michael Wertmüller a chegar ao Passos Manuel bastava. Não parece haver outra maneira: nas outras duas oportunidades que tive de ver Brötzmann, com músicos mais carismáticos e mais queridos para mim, o sentimento foi o mesmo. Não menospreza os músicos, antes pelo contrário. Estão lá pela sua qualidade, pela sua mestria. Mas Brötzmann é Brötzmann, os seus quase 50 anos de carreira e a sua obra falam por si.
No palco, a banda fez jus ao nome. Um baixo alucinante, uma bateria locomotora e os metais do mestre. Mais poder, mais energia, mais som. Se numa primeira fase o grupo me fazia crer que trabalhava para Brötzmann, rapidamente fui contrariado: Pliakas e Wertmüller podem não ter a presença de um Nilssen-Love ou de um Kondo, mas são dois monstros, dois intensos acumuladores de som, aos quais Brötzmann se junta para fazer a música estourar para. De dentro para fora, de nós para onde nos levar.
A sala parecia temer fazer as palmas irromper pelos silêncios, receando descer à cidade. As luzes acalmavam e davam o mote para tal manifestação. Apoteótica, tremendamente sentida e, aqui e hoje, também política. Sentíamos tantas influências a caminhar naquele som, tanta história por detrás daquele timbre rouco, que não me foi difícil, no Passos Manuel, de saltar décadas e uma vez, de saltar do metal mais extremo à sensibilidade de Lamentation de Martha Graham. É o que acontece quando um artista, uma banda, está à nossa frente a alargar o conceito de Arte, o conceito de música.
Nada incomodou a atuação. O jogo de luz pode ter incomodado Brötzmann – para mim deu pontos, nunca o tinha ouvido falar tanto num concerto – pode ter sido um domingo frio, pode-se ter partido uma corda no baixo de Pliakas. Mas foi uma grande noite. Sei que há gente, mesmo dentro deste mundo da música dita alternativa, que não vai à bola com estas sonoridades. Eu saí, já depois do encore, com muita alegria.



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