Noites Ritual: dia 2
Em noite de encerramento das Noites Ritual 2012, os PAUS foram enormes, mas A Naifa conseguiu sê-lo ainda mais.

Mais uma noite veraneante na cidade do Porto e mais um serão de música em português nos jardins do Palácio de Cristal. Ainda na celebração do vigésimo aniversário das Noites Ritual, os PAUS foram os primeiros a incendiar a temperatura já de si elevada.
Não deixa de ser curioso voltar atrás dois anos, data em que vimos o quarteto lisboeta dar os seus primeiros passos com o EP É Uma Água, e olhar para os PAUS por aquilo que são hoje: uma banda seguida por muitos, como os gritos quase histéricos – a chamarem por Hélio Morais – o demonstravam. Uma banda que evoluiu, que já pisou os palcos dos principais festivais nacionais, que consegue ter espaço para mostrar tentativas de incursão por outras sonoridades, com quatro músicos com experiência mais que provada neste e no seu radar de outros projectos.
Daí que não seja de estranhar que a recepção tenha sido entusiasta. Ouviram-se os principais temas de É Uma Água, o trabalho que colocou os PAUS nas bocas de meio mundo e, claro, Deixa-Me Ser, a faixa que apresentou o longa-duração de estreia homónimo. Como não poderia deixar de ser, foi mesmo o mais recente disco que esteve em destaque, com momentos mais experimentais, prolongados ao extremo, na mistura eficaz entre a electrónica dos teclados de Shela com a força da bateria siamesa que nos faz sentir coisas. Tal como em Paredes de Coura, Joaquim Albergaria assumiu o papel de timoneiro, ao andar pelo palco a incitar a multidão naquele que, cremos, se tratou de um tema inédito dos PAUS. Em suma, uma actuação que convenceu e que fez suar um entusiasta e conhecedor público, antes da bonança que A Naifa provocou.
Essa acalmia doce, triste como o fado, foi o embalo na incrível voz de Mitó. Escrever sobre A Naifa é, sem dúvidas, uma depressão que nos anima – quase literários, os antigos companheiros de João Aguardela explicam, com a sua música, o porquê de serem uma das bandas de culto do universo português. Se dúvidas houvesse com a escolha de terem sido os escolhidos para encerrar as Noites Ritual 2012, estas dissiparam-se com Monotone, repescado ao início da carreira dos portugueses. Sandra Baptista, no baixo, usa o luto como uma arma de força; Luís Varatojo é exímio na guitarra portuguesa e Samuel Palitos o condutor da tristeza feliz que a bateria impõe aos vocais d’A Naifa.
O negrume é senhor impávido, que guia o fado e os ritmos deste colectivo bafejado pela morte, mas que, ainda assim, encontra forças para dar de si. A Verdade Apanha-se Com Enganos, mas o certo é que não os houve, ontem, na actuação dos lisboetas. Um alinhamento bem pensado, com olhar no passado e com enfoque no presente, no mais recente álbum, Não Se Deitam Comigo Corações Obedientes. Destaque, ainda, a versão de Desfolhada, um original de Simone de Oliveira, a encerrar uma actuação marcante, emocional e latejante.
Num dia marcado por uma menor afluência, o balanço de duas noites de ritual não poderia ser mais positivo. Para o ano há mais.






